então lá estava eu, com 98kg, desesperada, triste, angustiada e sendo escrota com o mundo,
como se tudo e todos fossem os culpados pela minha desgraça
sim, ficar gorda pra mim foi uma desgraça!
se vc discorda, pare de ler por aqui
não tô aqui pra xoxar quem se aceita nem nada,
apenas decidi compartilhar a minha experiência com quem também não aguenta mais estar gordo.
voltando…
estava eu com 98kg, esbravejando com o mundo e comigo pela minha condição.
eu tomei remédios pra emagrecer desde os 17 anos, qdo cheguei a pesar 82kg e em 6 meses eu cheguei a 52kg. foi lindo!
lindo pq a magreza veio numa fase importantíssima pra mim, o início da faculdade.
lindo e sofrido. eu suava feito louca e não tinha apetite pra nada.
mas eu nem ligava. o que importava era eu me sentir bem, entrar em todo tipo de roupa que eu queria, esbanjar saúde, fôlego e sedux por aí. fora os gateenhos, né?!
aos 27, 10 anos depois, óbvio que a festa dos barbitúricos já não bombava tanto no meu corpo.
estabilizei meu peso em 60kg, já conseguia comer normalmente mas a irritação que essas bombas me causavam não parava.
então eu parei.
aí, em 1 ano, meus 60kg viraram 98kg. oi?!
somem à falta do remédio, a ansiedade, a safadeza de almoçar cebolitos e matar uma barrona de chocolate por dia.
sim, eu achava que eu poderia comer o que quisesse e que depois eu tomaria um remedinho e pluft! continuaria magra.
não notei quando comecei a engordar, mas tinha o pensamento imbecil de pedir pra minha mãe comprar calça jeans e cortar a etiqueta, pq eu não queria saber qual o meu manequim.
parte daí a auto-sabotagem
depois de começar a me fechar em casa, esbravejar a minha ira na internet, (pq é fácil se sentir forte com palavras qdo na verdade o sofrimento da vida offline é imenso), ser agressiva com todo mundo, ser dispensada por peguetes, ser alertada de como o meu corpo estava mudando e perdendo a forma, resolvi fazer regime.
sim, eu comia saladas e proteínas, arroz integral, pão 24725 grãos
adiantou?! nadica.
procurei um endócrino, que me passou um medicamento mais fraco que a minha anfepramona, a tal sibutramina.
efeito? nulo. tá escrito lá na minha ficha médica, podem acreditar.
o que eu fiz com o meu corpo? mascarei a minha doença com remédios que me deixavam alucinada
ah sim! eu estava “saudável”, sem diabetes, colesterol ou essas coisas, mas tinha a tal obesidade ferrando com a minha vida.
eu falei doença? sim, doença! obesidade é doença, lembram? e deve ser tratada, e não aplaudida. enfim…
fiz diversos exames para identificar o foco da obesidade, qual o melhor tratamento e, beirando os 30 anos, decidi, junto com os meus médicos, que a cirurgia bariátrica era o melhor caminho.
acho importantíssimo dizer que a cirurgia não é um atalho, muito menos coisa de gente preguiçosa, ninguém chega num médico e diz “ei, doutor, quero emagrecer! corte o meu estômago, por favor pq não tô afim de regime mto menos de malhar!”
é um processo longo, sério, doloroso, exige disciplina e cabeça no lugar. o endócrino, a nutri, a psicóloga e o cirurgião me acompanham desde dezembro do ano passado.
de dezembro a março fiz mais um monte de exames, regime, diário de bordo de como eu me sentia, como eu comia, pq eu comia… tudo isso pra entender qual a minha relação com a comida e como os meus sentimentos influenciavam na minha dieta regular.
minha família e meu namorado (que nessa época ainda nem era namorado) foram essenciais na minha preparação para a cirurgia e pela força que me movia.
um amigo meu, psiquiatra, viu que eu estava mais elétrica e ansiosa do que o usual e falou que ia me medicar pra eu me acalmar e pediu para acompanhar a minha cirurgia.
2 dias antes da minha cirurgia, ele faleceu num acidente de carro e fiquei tão tão triste… achei que fosse um sinal, pensei em desistir…
mas me mantive firme!
a cirurgia foi marcada pro dia 10 de março e, na semana que antecedeu, fiz uma “despedida” das comidas.
fui ao outback com a minha mãe, comi aquela cebola gigante, costela, chopp e tomei aquela sobremesa enorme chocolate thunder from down under. que gordice!
saí com o Du pra me despedir das batatas fritas, da cachaça, do chopp, da picanha, das frituras
pedi que a minha mãe fizesse brigadeiro com canela e banana para comer depois de um prato lindo de pirão de peixe.
já no bar com o Du, tomei cachaça, lula à dorè e entrei em jejum
rezei tanto antes de deitar!
aliás, quase não consegui dormir.
ouvi a minha mãe acordando cedo, ela conversando com o meu pai no corredor. a minha vontade era de abraçá-los o máximo que eu pudesse pq eu estava sim com medo de morrer ou ter um choque anafilático
pq eu nunca tinha operado nada na vida, nunca tinha tomado anestesia, estava meio apavorada, na verdade.
falei com o Du por dm e estava quase pronta
tirei a senha do meu iphone e escrevi um recado pra minha irmã, com todas as minhas senhas e tbm um recado pra cada pessoa que eu amo. olha que doida eu!
enfim, precisava fazer aquilo pra me sentir segura caso algo ruim acontecesse.
minha mãe tirou fotos logo que coloquei aquela camisola que fica com o bumbum de fora para guardar a minha última imagem antes da cirurgia
deitei na maca e me levaram pro centro cirúrgico.
que lugal frio, feio, todo de inox. fiquei tensa.
vi meu nome numa tela, me levaram até a tal sala de cirurgia
a sensação de ser levada deitada é tão impotente que só de pensar eu fico tonta
o anestesista conversava comigo, comentou da minhas tatuagens, o meu médico me falou oi e…
eu acordei chorando de agonia e de dor, chamando a minha mãe e falando que eu não queria mais operar e que era pra cancelar a cirurgia
lembro do meu médico dizendo que eu já estava operada
eu chorava, reclamava e dormia. eu não sabia aonde eu estava e lembro de tentar conversar com um moço bonitinho com barba por fazer que estava do meu lado
reza a lenda que eu cheguei a falar que ele era bonito. eu, a tarada da sala de recuperação.
tudo doía. o peitoral, ombros, o estômago… parecia que alguém estava estrangulando o meu estômago e que eu tinha o peso de um caminhão sobre o peito. não conseguia respirar. foi angustiante!
um enfermeiro mto legal parecido com o danny glover me levou para o meu quarto, chamei a minha mãe, que ficou do meu lado junto com a minha tia.
eu ouvia a música da novela araguaia “vaaaai amiiigo…” e dormia, ouvia a voz do carlos tramontina e dormia, ouvi a minha irmã e meu cunhado chegarem e dormia…
aí chegou uma enfermeira maluca pra me trocar. ela pediu que eu virasse de lado, apoiasse um braço na cama e me puxou. jesus! que dor foi aquela?!
aí eu dormi, dormi, dormi…
enquanto eu durmo, vou falar sobre a cirurgia.
a técnica que eu fiz foi a banda gástrica.
imaginem um aparelho de pressão. a parte que vai em volta do braço, vai em volta do estômago, na porção superior do meu estômago, que tem uns 20ml. o restante, que equivale a 1 litro, eu não preciso mais encher pra me sentir saciada.
existe uma manguerinha que tem um portal de titânio e silicone na ponta, que fica subcutâneo, abaixo das costelas do lado esquerdo. ele serve para ajustar a banda quando necessário. o médico usa uma agulha neste portal, com água destilada para inflar a banda e reduzir ainda mais a passagem de comida da porção superior do estômago para a inferior.
meu estômago parece uma ampulheta, sendo que a porção superior é bem pequena, como na foto. e a passagem de uma pra outra é bem estreita.
tenho 4 pequenas cicatrizes: uma do portal, 4 dedos abaixo do seio e com uns 3cm de comprimento e 3 cicatrizes acima do umbigo, uma para a câmera e duas para as pinças cirúrgicas essa têm 0,8cm cada.
acordei às 5h da manhã e dei longas 4 voltas no andar que eu estava no hospital, para ajudar a sair o gás carbônico que injetaram entre meus órgão internos e os músculos, para formarem uma “tenda”, que permitisse os médicos a me operar com mais mobilidade.
meio-dia eu eu já estava no carro do meu pai, voltando pra casa.
minha mãe comprou aquelas seringas de 20ml pra medir a minha “comida”. media 20ml de água, suco bem ralo e bem coado, água de coco ou água coada do cozimento de legumes e carne e tomava de 5 em 5 minutos
na segunda semana após a cirurgia eu fui ao meu restaurante favorito com os meus amigos e pedi água. achei que eu fosse morrer de vontade e ferrar com a noite de todos, mas foi super tranquilo. a única coisa que eu não consegui foi tossir, gargalhar ou espirrar. doía tudo. mas começar a socialização foi ótimo!
eu saía com o Du pros bares, pedia água e ficávamos horas conversando. não pedia suco no bar pq eles jamais coariam o suficiente e, neste ponto, qualquer fagulha sólida que caísse no meu estômago, seria um desastre para a cicatrização!
após 1 mês, meu primeiro copo de suco de laranja normal, sem ser coado, foi festejado no bar. e como não consegui tomar inteiro, os meninos completaram com vodka e mandaram ver!
voltei aos poucos a comer: dieta líquida, dieta líquida completa que permite iogurte, leite batido com frutas e gelatina e enfim a dieta sólida, que começou com 100 grandes gramas de legumes bem bem cozidos e aumentou para carnes, verduras e queijos. pode pão e carboidratos tbm. mas eu não gosto muito, então tirei do meu cardápio. mas confesso que eu não aguento mais ver gelatina e brócolis na minha frente!
nisso eu já tinha sido pedida em namoro e também pude voltar a fazer exercícios. rá!
uns 3 meses após a cirurgia, entalei pela primeira vez com a pelinha de uma tangerina.
preparem-se para cenas de terror: achei que eu fosse morrer de dor, sem ar. os olhos lacrimejam, o nariz começa a escorrera dor no estômago é terrível e parece refletir no coração, parece que tem alguém esmagando os dois órgãos com as mãos!
e não adianta tomar água, aliás, isso só piora!
talo, bagaço e semente são proibidos pra mim.
umas duas semanas depois, pedi uma chapa de filé num bar. não mastiguei direito e de novo entalei. carne é o pior, é o que mais entala e também o que eu mais preciso comer
todos os dias eu me concentro para comer e como bem pouquinho, cerca de 250g por dia.
tomo uma garrafinha de iogurte, uma fruta ou uma fatia de queijo branco de manhã (queijo branco é ruim de comer, pq é borrachudo e não desce redondo)
almoço salada temperada com um pouquinho de sal e um grelhado de umas 50g (tem dias que consigo 100g, principalmente com peixe ou carne moída) e a noite repito o mesmo esquema do almoço. nos intervalos como uma fruta e tomo mta água e continuo com os meus sucos ralos. o legal dos sucos ralos é o rendimento e menos calorias por porção.
já comi chocolate (pouco, lógico) e em uma festa de criança, peguei um olho de sogra e um brigadeiro. demorei uma meia hora pra comer os dois. é mto pesado. dói demais.
mas tenho plena consciência da complexidade da cirurgia que fiz, do quanto sofri enquanto estava obesa, do quanto eu sofro cada vez que eu não mastigo direito e entalo, do quanto a minha família, meus amigos e meu namorado me dão força e do quanto de grana eu estou gastando com isso. até meu namorado emagreceu! logo, não vou estragar todo o meu progresso pelo prazer instantâneo de uma barra de chocolate.
a paz que eu encontrei, a felicidade que eu sinto e a mulher que eu olho e admiro (não só por fora) são mto maiores do que qualquer deslize.
já são -22kg, -16% de gordura corporal, -18cm de cintura e -10 números de calça jeans!
alguns moços já voltaram a mexer comigo na rua. e dessa vez não é pra me chamar de gorda…
troco fácil a gostosura de um chocolate (meu maior vício) pela gostosura de ouvir das pessoas “nossa! como vc emagreceu!”